domingo, 12 de junho de 2016

A noite escura.

Na noite escura, escurecendo, um brisa sutil desce do alto dos céu e varre os rostos dos homens. O frio que corre por suas peles não é distante do frio que sobre por sua espinha conforme caminha por um cemitério. Sim,aquela brisa fria é o mesmo hálito gélido dos mortos.

Mas este ar que eu respiro tem algo de incrível; este ar que enche meus pulmões também preenche minha alma e uma velha fome que eu não mais lembrava ter. E vejo no céu escuro uma massa ainda mais escura que o vento carrega no alto dos céus: é o rugido do trovão, a nuvem de chuva, eles vêm a mim novamente! Minha tempestade perfeita, por tanto tempo distante, retorna para o local de onde veio para preencher meus pulmões e alimentar minha alma, meu apetite por poder e propósito.

Ela é bem-vinda, a tempestade consegue sentir. O vento cortante varre meu rosto e eu sinto seu abraço poderoso. Ele me recarrega e eu surjo, renascido, para ver o mundo de uma maneira conhecida apenas por mim. O azul elétrico do raio toca minha pele e se transforma em um brilho dourado. O furacão afia a lâmina em minha mão direita, tão afiada que pode cortar um pensamento antes dele ocorrer. A chuva chega e lava os fragmentos de Passado que se agarram a mim, as memórias de um tempo em que eu havia me esquecido de quem era.

 E o hálito dos mortos que traz o frio, para mim é a marca de grandes eventos a se desdobrar neste mundo que, novamente, sou capaz de ver. E nunca mais minha tempestade para longe de mim irá correr.

   (Minha versão deste meu texto)

Na hora certa

Ainda era muito cedo para eu ir te ver. Era tudo tão novo e eu ainda não havia dormido.

Não que eu não quisesse ir, mas o tempo nem sempre nos ajuda. Você se lembra de tudo o que fizemos ontem. Hoje eu tive que consertar as coisas. Era muita coisa quebrada, muita coisa estragada, muitos pedaços que eu não sei de onde vieram. Joguei todos fora. Teve um estilhaço de vidro que eu guardei, não sei ao certo o motivo...

Foi ficando mais tarde e tudo foi ficando vazio. Mas ainda era cedo demais.

Não que eu não pudesse ir, mas eu não devia. Achei que seria errado, que não era um bom momento. Simplesmente não seria de bom tom aparecer agora, ao menos que você deixasse a porta aberta. Eu tenho sua chave, mas não queria usá-la.


Foi ficando mais tarde e tudo foi se encaixando. Mas ainda era cedo demais.

sábado, 11 de junho de 2016

Falar sozinho.

Os pés balançam sobre nada. Sentado, me seguro na beira do precipício. Sem luz atrás, sem luz a frente, vejo apenas meu corpo neste instante efêmero.

O Vazio a frente me olha. Aquela imensidão, que tão bem me conhece, tem olhos negros de piedade. Ele me diz que quanto mais vazios, mais profundos somos, e mais de toda a criação nós podemos conter.

Eu olho o Vazio a frente. Esta tempestade, que tão bem o conhece, tem olhos negros de fúria. Eu lhe digo que do que os outros criaram pouco se aproveita, que uma cova rasa é o suficiente para se conter tudo o que me interessa.

O Vazio sorri. A piedade de seus olhos se esvai, pois ela era apenas malícia o tempo todo. Ele me diz que nada que existe fora jamais irá me confortar como o que existe dentro. Me diz que Ser é Sofrer, que Existir é se Perder, que me cercar de tudo que não sou Eu é me roubar de minhas maiores dimensões.

Eu sorrio. A fúria em meus olhos se esvai, pois ela  era apenas malícia o tempo todo. Eu lhe digo que nada que existe fora jamais irá afetar o que existe dentro. Lhe digo que Existir não é Ser, e que Sofrer não é Perder, que não é o que me cerca que me define, e sim as minhas maiores dimensões, tão vastas que apenas eu conheço e que nada que não sou eu pode definir.

Nós nos entreolhamos pois sabemos. Sabemos que não existe beira de precipício, que quem Existe fora não é quem nós Somos realmente. Sabemos que não existe um eu e um ele, que nós somos o mesmo, infinito, com espaços se dobrando sobre si mesmos e crescendo internamente, sem acabar nunca mais... E que, do lado de fora, somos apenas um rosto, uma voz sorrindo, uma pessoa que esconde o maior segredo do mundo.