Esquizofrenia. É tudo em que o mundo resulta. O resultado último do crescimento do ser, da quebra dos laços do coletivo para que o individual possa crescer e se tornar suficiente... Mas ele não sabe disso, por nunca ter sido nada diferente de individual... Ele é aquele que representa ao Todo e, por isso mesmo, sem semelhantes.
Conforme Lord Gabe MacArthur caminha no leito profundo do mar, a poeira da lama cobrindo suas pegadas, as sombras rodam e formam imagens na água. Pessoas, lugares, tempos diversos e tão frívolos quanto os reais: com apenas um gesto, ele dissolve as aparições num redemoinho gélido.
Está tão profundo que não existe vida ali. A pressão é constante, assassina, e o frio vence a chama de qualquer existência. Um lugar jamais tocado pela luz, sem cor ou som. Seria esse o fundo do mar ou apenas um retrato de seu interior? Uma pergunta tola que ele se faz... Mas ele não se permite pensar sobre si mesmo. Isso só faz aumentar o desgosto pela sua existência onírica e desejar mais ainda a sazonalidade do mundo. Enquanto o Universo que ele encarna persegue a eternidade, ele apenas quer um fim para tudo! Quanto mais ele pensa sobre si mesmo, mais transtorno esse paradoxo gera...
A verdade, porém, cruza sua mente como as pedras afiadas do solo cortariam seus pés, caso não se despedaçassem antes dele tocá-los: O Universo busca a eternidade, mas ele já é eterno... Ele não representa o Todo, ele está além disso, muito além. Ele é o vazio que fica quando o objetivo é conquistado e a dor de perceber que não era exatamente aquilo que deveria ser buscado. Ele é o sucesso, o ápice de tudo aquilo que a humanidade nem consegue imaginar. Enquanto eles buscam o Eterno ele já conquistou o Eterno, o Perfeito e o Infinito. Os três tesouros que a humanidade jamais terá, que ela busca eternamente e que de nada lhe servirão. Os três castigos que o torturam, que não se pode abandonar e que são a razão de sua existência.
Ele representa o Todo como sendo seu exato oposto... A resposta final para tantos séculos de dúvida!
Conforme a água ferve e ele voa em direção ao céu, sobra no leito do mar uma nova questão: Se o Todo é absoluto e a tudo engloba, o que resta fora dele para ser seu Oposto? Nós não saberemos a resposta, ela está no Infinito que não podemos compreender. Lord Gabe, porém, não apenas sabe a resposta. Ele é a resposta...
sexta-feira, 15 de abril de 2005
domingo, 27 de fevereiro de 2005
Antigas Escrituras #5
É uma perdição, esse cosmo e essa raça. Esse éter e essa vida. Enquanto alguns se deliciam, outros pagam o preço.
Começou de novo! Olhem pelas suas janelas e vejam o céu perder a cor, a grama murchar e o orvalho secar.
Vejam o sonho etílico se dissipar no ar infindável como um vapor tão leve e insignificante. O ar podre, viciado, sufocante. Olhem para fora. Observem essa dança imunda e todos os passos que querem nos ensinar. E ninguém se dá ao trabalhado de te pergunta se você realmente quer participar.
O véu irá cair. A podridão volta. A ilusão vai. Parte a euforia, volta o desespero. E a mesma velha e maldita agonia de sempre. Não, nunca a de sempre... Ela sempre ganha forças maiores após destruir mais um novo ramo verde no meio dos pântanos mortos.
E fica a lembrança de tantas épocas boas como essa que se acabará em breve. Logo essa lembrança terá perdido toda a cor e todo o brilho, assim como fotos que ficam velhas demais. Elas não servirão mais quando tudo estiver escuro e frio, sem tom.
Mas, assim como fotos velhas, não perderão seu valor; e não serão jogadas fora.
Começou de novo! Olhem pelas suas janelas e vejam o céu perder a cor, a grama murchar e o orvalho secar.
Vejam o sonho etílico se dissipar no ar infindável como um vapor tão leve e insignificante. O ar podre, viciado, sufocante. Olhem para fora. Observem essa dança imunda e todos os passos que querem nos ensinar. E ninguém se dá ao trabalhado de te pergunta se você realmente quer participar.
O véu irá cair. A podridão volta. A ilusão vai. Parte a euforia, volta o desespero. E a mesma velha e maldita agonia de sempre. Não, nunca a de sempre... Ela sempre ganha forças maiores após destruir mais um novo ramo verde no meio dos pântanos mortos.
E fica a lembrança de tantas épocas boas como essa que se acabará em breve. Logo essa lembrança terá perdido toda a cor e todo o brilho, assim como fotos que ficam velhas demais. Elas não servirão mais quando tudo estiver escuro e frio, sem tom.
Mas, assim como fotos velhas, não perderão seu valor; e não serão jogadas fora.
segunda-feira, 8 de novembro de 2004
Antigas Escrituras #4
Neste tempo em que estive meio afastado, comecei a pensar em como era difícil manter isto aqui, como era complicado sentar e escrever tudo o que eu queria, transmitir uma idéia, de uma maneira única, que me deixasse satisfeito.
Mas agora eu lembro como é tão simples, como sempre foi. Basta sentar em frente a essa tela branca e correr os dedos (sem a mesma agilidade de antes, é verdade) sobre o teclado, que as coisas fluem por sí só. Uma espécie de movimento autônomo, repassando tudo diretamente para cá. As tortuosidades e descontinuidades tão bem medidas de meus textos sempre foram obras intuitivas naturais de meu pensamento. Que o caos que reina possa se mostrar!
Mas já não tenho a mesma satisfação. É que escrever clara e diretamente nunca foi minha atividade predileta e não consigo mais achar o tempo para mascarar minhas coisas, colocá-las em novos moldes, para torná-las mínimamente interessantes. Neste exato momento estou enojado com relação a tudo isso que escrevi aqui até agora, ao ponto de deletar tudo e jogar fora mais 5 minutos de trabalho. O que sumiu, em relação a antes?
Talvez a habilidade de avaliar as coisas. Aquele meu olhar analítico e metafórico sobre o mundo certamente se enfraqueceu. Em seu lugar, surgiu uma visão focada, intensiva e que busca a clareza, não a sugestão e a dúvida. São espécies diferentes de procedimentos, mas que garantem resultados também diferentes. Os novos resultados não me satisfazem, mas tornam complicado um eventual retorno ao antigo padrão. Como diria Nietzsche, "uma aventura de sete solidões". Hoje não entendo o que isso quer dizer, mas com a antiga visão certamente poderia explicar.
Nhé.
Mas agora eu lembro como é tão simples, como sempre foi. Basta sentar em frente a essa tela branca e correr os dedos (sem a mesma agilidade de antes, é verdade) sobre o teclado, que as coisas fluem por sí só. Uma espécie de movimento autônomo, repassando tudo diretamente para cá. As tortuosidades e descontinuidades tão bem medidas de meus textos sempre foram obras intuitivas naturais de meu pensamento. Que o caos que reina possa se mostrar!
Mas já não tenho a mesma satisfação. É que escrever clara e diretamente nunca foi minha atividade predileta e não consigo mais achar o tempo para mascarar minhas coisas, colocá-las em novos moldes, para torná-las mínimamente interessantes. Neste exato momento estou enojado com relação a tudo isso que escrevi aqui até agora, ao ponto de deletar tudo e jogar fora mais 5 minutos de trabalho. O que sumiu, em relação a antes?
Talvez a habilidade de avaliar as coisas. Aquele meu olhar analítico e metafórico sobre o mundo certamente se enfraqueceu. Em seu lugar, surgiu uma visão focada, intensiva e que busca a clareza, não a sugestão e a dúvida. São espécies diferentes de procedimentos, mas que garantem resultados também diferentes. Os novos resultados não me satisfazem, mas tornam complicado um eventual retorno ao antigo padrão. Como diria Nietzsche, "uma aventura de sete solidões". Hoje não entendo o que isso quer dizer, mas com a antiga visão certamente poderia explicar.
Nhé.
quarta-feira, 8 de setembro de 2004
Antigas Escrituras #3
Mais uma vez? Não, não quero! Pelos campos cinzas da derrota eu não vou rondar! Meu canto se esgota enquanto eu fico ansioso esperando o que não vai poder chegar e, ao ver que não vou a lugar algum, minha alma negra se esconde mais ainda do sol brilhante. Meu espírito tingido por anos e anos da mesma história que se repete entra de vez na noite eterna. Eu não saio mais daqui. Me condeno e me amaldiçôo pois tudo dá errado. Nada chega, nada vai. Por nenhum outro campo me permito cavalgar. Mas que vontade eu tenho de sentir o toque da grama verde e do orvalho doce! Queria que a noite me molhasse de sereno, não de lágrimas, e queria que o destino não usasse minhas próprias armas para me ferir, me matar. O futuro, meu inimigo. O passado, minha dor. O presente, minha agonia. Eu me pergunto: se o tempo a tudo vence, quanto tempo mais poderei eu resistir à mim mesmo? Meu peito explode a cada batida de meu coração quente, tão cruel comigo. Mas é bom se sentir despedaçado quando sua integridade é questionada. Eu sou a fonte de meus problemas e seus agravantes! Eu englobo todos os motivos de minha dor. Serei eu, porém, a cura? Não! Sou pestilento e tóxico e podre e vil. Não conheço sonho, sou vazio. Não tenho para onde ir, voltar ou ficar. Do nada, nada surge. Meu inimigo, o Futuro Vazio, quem sabe não exista mais, mas eu não posso vencê-lo! Pelos campos cinzas da derrota eu vou vagar, mais uma vez, para todo o sempre, além do resto dos meus dias.
Amém.
Amém.
sexta-feira, 23 de julho de 2004
Antigas Escrituras #2
Por algum motivo estranho, está claro lá fora. Eu sei que isso é normal, mas o estranho é que eu não saio de minha tumba em horas assim. Eu acreditava que alguma luz estava surgindo para mim e resolvi então vir apreciar o sol dourado. Mas a manhã é fria e o vento continua gélido. Eu continuo noturno. Não existe luz além daquela esperança que surge para deixar as trevas ainda mais escuras.
O dia é ainda mais escuro que a noite, dentro de mim. Enquanto tudo brilha, percebo que a minha existência é obscura e sem luz. Enquanto tudo brilha, as sombras são ainda mais profundas. E ao ver que as vidas refletem milhares de raios como prismas a separar os diferentes espectros de cor, eu finalmente percebo e aceito novamente que sou uma mancha negra no sol, um eclipse, uma nuvem de tempestade que transforma dia em noite. Eu possuo uma bruma tão densa ao redor de minha alma que nada jamais penetra. Não existe onda de calor que possa tocar meu espírito, porém eu congelo tudo o que toco. Eu não tenho proteção alguma contra mim mesmo conforme sinto meus próprios pensamentos cortando minhas esperanças e as lembranças de minha alegria. Não é assim que deveria ser? O sentimento contra a razão, a alma contra a mente? A luz contra a escuridão? Porém, todos esses elementos são iguais em natureza e diferentes apenas em grau. A alma é a luz quente do sol. A mente é a luz fria da lua. Eu sou a escuridão de quem não sabe qual das suas seguir. Sigo pela trilha oculta de quem não sabe qual direção tomar, qual orientação aceitar.
Será mesmo dia? Se a luz é tudo que acaba com a noite, uma vela pode fazer verão. Não, ainda não é dia para mim. Embora o sol fulgure lá fora, eu ainda sinto a manhã fria e o vento gélido. Se você observar as imagens da aurora e do crepúsculo, verá que elas são iguais. Eu me observo durante o dia: negro, frio, melancólico e só. Soturno. Para mim não existe dia, ainda é noite. Ainda é noite.
O dia é ainda mais escuro que a noite, dentro de mim. Enquanto tudo brilha, percebo que a minha existência é obscura e sem luz. Enquanto tudo brilha, as sombras são ainda mais profundas. E ao ver que as vidas refletem milhares de raios como prismas a separar os diferentes espectros de cor, eu finalmente percebo e aceito novamente que sou uma mancha negra no sol, um eclipse, uma nuvem de tempestade que transforma dia em noite. Eu possuo uma bruma tão densa ao redor de minha alma que nada jamais penetra. Não existe onda de calor que possa tocar meu espírito, porém eu congelo tudo o que toco. Eu não tenho proteção alguma contra mim mesmo conforme sinto meus próprios pensamentos cortando minhas esperanças e as lembranças de minha alegria. Não é assim que deveria ser? O sentimento contra a razão, a alma contra a mente? A luz contra a escuridão? Porém, todos esses elementos são iguais em natureza e diferentes apenas em grau. A alma é a luz quente do sol. A mente é a luz fria da lua. Eu sou a escuridão de quem não sabe qual das suas seguir. Sigo pela trilha oculta de quem não sabe qual direção tomar, qual orientação aceitar.
Será mesmo dia? Se a luz é tudo que acaba com a noite, uma vela pode fazer verão. Não, ainda não é dia para mim. Embora o sol fulgure lá fora, eu ainda sinto a manhã fria e o vento gélido. Se você observar as imagens da aurora e do crepúsculo, verá que elas são iguais. Eu me observo durante o dia: negro, frio, melancólico e só. Soturno. Para mim não existe dia, ainda é noite. Ainda é noite.
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