domingo, 12 de junho de 2016

Na hora certa

Ainda era muito cedo para eu ir te ver. Era tudo tão novo e eu ainda não havia dormido.

Não que eu não quisesse ir, mas o tempo nem sempre nos ajuda. Você se lembra de tudo o que fizemos ontem. Hoje eu tive que consertar as coisas. Era muita coisa quebrada, muita coisa estragada, muitos pedaços que eu não sei de onde vieram. Joguei todos fora. Teve um estilhaço de vidro que eu guardei, não sei ao certo o motivo...

Foi ficando mais tarde e tudo foi ficando vazio. Mas ainda era cedo demais.

Não que eu não pudesse ir, mas eu não devia. Achei que seria errado, que não era um bom momento. Simplesmente não seria de bom tom aparecer agora, ao menos que você deixasse a porta aberta. Eu tenho sua chave, mas não queria usá-la.


Foi ficando mais tarde e tudo foi se encaixando. Mas ainda era cedo demais.

sábado, 11 de junho de 2016

Falar sozinho.

Os pés balançam sobre nada. Sentado, me seguro na beira do precipício. Sem luz atrás, sem luz a frente, vejo apenas meu corpo neste instante efêmero.

O Vazio a frente me olha. Aquela imensidão, que tão bem me conhece, tem olhos negros de piedade. Ele me diz que quanto mais vazios, mais profundos somos, e mais de toda a criação nós podemos conter.

Eu olho o Vazio a frente. Esta tempestade, que tão bem o conhece, tem olhos negros de fúria. Eu lhe digo que do que os outros criaram pouco se aproveita, que uma cova rasa é o suficiente para se conter tudo o que me interessa.

O Vazio sorri. A piedade de seus olhos se esvai, pois ela era apenas malícia o tempo todo. Ele me diz que nada que existe fora jamais irá me confortar como o que existe dentro. Me diz que Ser é Sofrer, que Existir é se Perder, que me cercar de tudo que não sou Eu é me roubar de minhas maiores dimensões.

Eu sorrio. A fúria em meus olhos se esvai, pois ela  era apenas malícia o tempo todo. Eu lhe digo que nada que existe fora jamais irá afetar o que existe dentro. Lhe digo que Existir não é Ser, e que Sofrer não é Perder, que não é o que me cerca que me define, e sim as minhas maiores dimensões, tão vastas que apenas eu conheço e que nada que não sou eu pode definir.

Nós nos entreolhamos pois sabemos. Sabemos que não existe beira de precipício, que quem Existe fora não é quem nós Somos realmente. Sabemos que não existe um eu e um ele, que nós somos o mesmo, infinito, com espaços se dobrando sobre si mesmos e crescendo internamente, sem acabar nunca mais... E que, do lado de fora, somos apenas um rosto, uma voz sorrindo, uma pessoa que esconde o maior segredo do mundo.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

And in the shadows it lurks, a constant calling, inviting me home. It urges to emerge, to come out, to send me back in in its place.
I always said "not now". Now I say "nevermore"...
... but we both know I dread the day the calling will not be an invite, and may overpower me.
... and we both know that, above all else, I dread the day the calling will not come. 

terça-feira, 24 de março de 2015

Viajem para a Lua

De que me serve tudo isso?
Nada adiciona e, francamente, sinto que me subtrai.
Subtrai-me o ar livre e a luz do sol,
Dos quais não sinto falta, mas subtrai-me também a luz das estrelas,
E a face da lua que se esconde entre as nuvens.

Sobra-me só a chuva, e só por que ela força os animais para dentro de suas tocas.

E tudo tem lágrimas demais, e opiniões,
E as verdades já as conto em mais de 7 bilhões,
Absolutas, mas efêmeras como as gotas da chuva.
E minha verdade, que só é verdade na metafísica das verdades,
Se encolhe solitária em nossa toca.

E são emoções, que se confundem com razões,
Que se trocam por desejos e se perdem em argumentos,
Todos já perdidos.
E meus argumentos, que não se tomam por nada mais,
Subtraem-se de seu valor inerente.

Mas as nuvens abrem um pequeno espaço,
E o olho bom da lua de Méliès me espia,
Me dizendo que tudo é ficção e fantasia,
E que aquele que só é dotado de lágrima e opinião,
Aquele feito só de verdades e emoção,
É a pessoa verdadeiramente vazia.
E que quanto mais subtraem do que de mim está fora,
Mais se prova que em mim contenho todas as curvas do mundo.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Ciência

Eu já lhe olhei tanto,
Com olhos semicerrados em uma dúvida fundamental, quântica...
E contei giros, rodas e voltas
Contei histórias como quem as lembra.

Tenho hoje uma certeza profunda,
Inabalável como a convicção dos jovens,
Que as lacunas que me tiravam o sono
Eram apenas o espaço que vem depois do fim.

Eu sei que posso estar errado,
Mas não lhe farei mais perguntas.
Eu sei que espero estar errado,
E que perguntas, olhares e dúvidas
E questões e idéias e teorias e tudo,
Por mais que assim sejam concebidas, não têm em si relação alguma com o objeto,
Eu sei que o Objeto só tem relação consigo mesmo,
E só tem os compromissos que assume consigo mesmo,
E que, por si só,  nunca inclui as respostas.